
O pensamento com perspectiva filosofante
não passa de um ceticismo teórico,
mas a vida
não se reduz à razão,
pois esse reducionismo empobrece
a relação humana
que é mais rica
que o Quietismo.
A filosofia enquanto crítica acerba
do conhecimento teórico
não permite que o pensamento
chegue ao ponto de fé
ou ao ponto de orvalho
face de areia
lavada pelos olhos
do outro que chora.
A fé, que é a vida,
que é a esperança,
que salva,
que é o amor,
que é a caridade,
na acepção latina de "caritas" :
amor divino,
a fé e a razão
têm que ser equalizada
na equação
que cabe na física e na matemática
em linguagens poéticas para-glaciares,
sem a libido,
mas não no homem
e na mulher,
onde cabe o amor,
que na paixão vem destroçar
- o coração irrequieto.
A filosofia moderna
livre até no conhecimento,
e do próprio conhecimento liberta,
insurreta, sempre amotinada,
iconoclasta,
indiferente à limitação que representa a ciência,
mera encenação para gente limitada
que não tem cérebro para ato filosófico,
sabe que o conhecimento científico,
ou da razão ("Scientia rationis")
se restringe ao teorético,
e, portanto, não contamina a prática
do homem comum
nem a práxis do sábio,
pois o fazer
casa-se com o saber
que é pura fé,
vida, amor, caridade...,
porquanto a sabedoria
é inata, ingênita,
viva na inteligência viva da criança
e morta nos adultos amortecidos,
embotados, estapafúrdios, basbaques...
Quando eu era um filósofo epicúreo
olhava com tamanho desdém,
abrangia com um olhar irônico,
sobranceiro e eivado de indiferença
todos os seres humanos.
Hoje fico a cismar
se não foi pelo meu antigo desprezo
pela torpe humanidade
que me apaixonei de verdade
e,à primeira vista me encantei,
desmensuradamente
ao deparar com a medusa
subindo as escadas
que eu então descia
e o desdém aliado à sua beleza
evocou-me o meu ar escarninho de antanho
como o escárnio(escárnio!)
apegado à minha inteligência livre e natural,
tirada ao gênio da natureza,
- ao gênio nas crianças!
Será que quando vi a medusa
o que amei foi o epicureu em mim,
observando-o nela refletido
como se fora um Narciso
em forma feminina?!
Ah! o amor!
A paixão, pacto com fogo,
esta lava
que lava a face,
a face de areia
em banho na clepsidra,
com a água da clepsidra,
que apaga a areia
e cava a face
como se fosse uma fauce(fauce!)
ou uma cova
antes da cova a final.
Vinca-a, ao andar sobre a areia,
o tempo, este filósofo epicurista,
aqui escriba.
As faces dela e minha
na areia da ampulheta
contadas em tempo
são fauces
e foices da morte
que sega.
Quando a vi
subindo a escada
toda tesa(tesa!)
em sua beleza exuberante
fiquei embevecido, extasiado!
Só depois do choque tremendo
é que me ocorreu
que eu era assim
um deus epicúreo
com todo o direito
de desprezar o mundo
dos homens vis
e das mulheres venais
que valem os seus míseros reais,
mas não valem uma flor-de-lis,
nem um miosótis pequenino :
- gente abortada,
sem beleza e destituída de inteligência,
sem dignidade nem honra,
decrépitos, insolentes, levianos,
ineptos para o amor,
inermes vermes...
Vi-a e só então recordei-me,
caí em mim de maduro,
- que eu sou assim
igual a ela,
não similar nem semelhante,
mas igual a ela na equação,
seja no odor que exala da carne
e dos cabelos negros
ou no que mais possa ser
a quatro olhos negros na noite.
Somos um ser ( em dois!) assim
- sem perfumes, nem disfarces, nem ciúmes...
simples, porém não simplórios,
capazes de desprezar o mundo inteiro,
mas a nos amar
até a eternidade passar
e escrever o saltério e os cantares
dessa paixão de vulcão em erupção
nos céus, em rolos de pergaminho,
e na terra, onde nasce o papiro,
epicúrea medusa!
( Excerto dos "Apócrifos da Medusa" e do livro "Os Cantos Sobranceiros do Jardim de um Deus Epicúreo")
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O poeta é o filósofo
no plano vegetal,
no sistema nervoso autônomo:
o arquiteto do "pathos"
e do pacto com Deus;
o filósofo é o poeta
no plano social :
o engenheiro do caos(caos!).
Tem licença poética
e pode escrever em versos
sem compromisso algum
com as verdades alheias,
alhures na ciência
ou na filosofia,
que também só tem compromisso
com a liberdade.
Por isso pode escrever assim,
conforme abaixo,
depois dos dois pontos,
sua ação em dissertação de filósofo vegetal,
pois o poeta é o filósofo natural,
mas e mais para a natureza do fenomenológico,
fenomenologista ou fenomenólogo que é :
No transcurso do sono,
reza o poeta,
o livre-pensador,
o filósofo em sistema de erva daninha,
durante o sono
o que pode levar à morte
é a bradicardia,
porquanto o sono relaxa o corpo
e o coração então tende a parar
e só não para, na maioria das vezes
graças às leis complexas da inércia,
o que é um paradoxo,
pois leis trazem sempre anfibologia.
Inobstante, uma bradicardia severa
pode levar à morte
por apnéia ou dispnéia
o indefeso adormecido.
Todavia, não é a dispnéia ou apnéia
que mata,
porém sim a bradicardia,
uma vez que a dispnéia
é apenas um problema do sono
quando o coração diminui
ou, quem sabe, aumenta o ritmo cardíaco
no transcurso do repouso
porque o sistema é cardio-respiratório-vascular
e, portanto, não seria inteligente inferir
que os transtornos do sono
recaiam apenas na apnéia noturna.
Na realidade, talvez,
a morte súbita venha
( que não me venha!
nem a ti, Medusa,
que és toda a minha vida!:
sem ti não saberei viver mais,
pois só haveria ontem
e não outro dia,
outra manhã...)
da parte parada, em aparte,
do coração que está no peito
batendo no ritmo do carnaval
que vitimou uma personagem de Jorge Amado.
( Adeus Vadinho!, de Dona Flor,
de Jorge Amado!
Adeus, Vadinho tão amado
pela bela flor que tinha!).
(Quão feliz seria
se me amasse a Medusa!,
que não é minha...
- mas minha musa é,com fé! ).
Ao ocorrer a bradicardia severa,
no escuro do sono,
o cérebro entra em pânico
e age pelo pesadelo,
que é uma reação desesperada
para acordar a bela adormecida.
Caso o sistema nervoso autônomo
não tenha sucesso
advém a parada cardíaca
e, concomitantemente, respiratória
e, consequentemente, a morte.
Há vários tipos de pesadelos.
Uma vez tive um pesadelo
no qual uma víbora negra,
grande e pesada
estava sobre o meu peito enrodilhada;
ao acordar espavorido
a cobra ainda pesava na anatomia,
mas não me entrou na retina
e sumiu no ar
sem peso algum,
sem massa corporal.
D"outra feita era o demônio
que me sufocava
e no pesadelo
estava eu cônscio
que se não me movesse minimamente
morreria ali deitado, inerte, inerme.
Mexi um dedo,
movi um mundo
e o corpo voltou à superfície
ansioso para respirar
e sentir a inspiração da vida,
o sopro doce e musical do oboé
tocada pelo anjo do Senhor,
no dia do Senhor.
O diabo não me afogou
- no fogo do inferno?!
Não pode comigo, amigo.
( Os sistemas nervosos
sabem da iminência da morte
e lançam pesadelos
nos quais estão presentes
entes queridos falecidos
a fim de que o "paciente" do cérebro
(cadê o Pink?!)
acorde para a vida
ao invés de se deixar afundar
num poço de águas profundas
aonde irá se afogar
- saiba nadar ou não,
seja peixe ou feixe de lenha na corredeira do rio
que quer mar
como quero minha medusa.
Ah! quanto querer!!!).
Não, senhores que se julgam doutores
e não o são
( doutos são os filósofos,
que além de eruditos
põe no mundo sua tese original
e não mera cópia reprográfica
de doutrinas alheias
esparsas alhures
pelos alfarrábios
com vasta população de traças e carunchos,
ácaros e acaricidas...
Não dá mais alergia
o ácaro que o acaricida?!);
não, senhoras com doutorados,
mas não são doutas,
antes são doudas borboletas ligeiras;
entretanto, possuem o título mercantil,
no Brasil dos asnos de ouro,
mas sem Apuleyos (Apuleio!);
não, não, não-doutos médicos,
não é a apnéia
ou a dispnéia
que mata o dorminhoco oco :
é a bradicardia severa!
ou, quiçá, quem sabe,
um complexo de problemas
sem emblemas, enfisemas
ou outras lexemas.
( Viva a ema
e a seriema
e a serra e o planalto da Borborema!)
Nunca, jamais vi um notório "roncador",
senhor doutor,
( na Serra do Roncador ou alhures!)
que tenha morrido no curso do sono.
Não, aqueles que roncam
voltam a pescar a aurora viva
no peixe vivo tomado à mão do canoeiro
- na barcarola do rio São Francisco,
que é um monge franciscano descalço,
não uma carmelita descalça,
não uma das "Teresas"
de Santa Teresa de Ávila,
doutora da Igreja
de fato e de direito.
( Foi Santa Terezinha do Menino Jesus
uma de suas "Teresas"?!
- Esta outra douta,
santa cujo símbolo
é a rosa que viaja no ar...
com minha Medusa?!).
O sistema nervoso vegetal
ou autônomo, ou o poeta interior,
- no interior da aldeia
conglomerada na junção da imaginação,
- aldeia que é o ser humano individual
convivendo "coletivamente"
com seus fantasmas
em aldeias-fantasmas
e com o populacho bronco,
os vilões das "vilas" ricas,
com reino por dentro do sono
e império a constituir-se por fora
no sonho de olhos abertos,
- o sistema vegetativo
que mantem o ser vivo,
peleja ininterruptamente
contra a morte
em seus surtos intermitentes,
qual fosse um paladino
com o gládio do pesadelo em riste
passando à espada as hostes da morte.
O cérebro bifronte,
com sistema involuntário
e sistema voluntário,
frente ao desafio
que lhe lança a morte
à galope no corcel amarelo
desafia o frontispício do templo do deus Jano,
o bifronte, no tempo,
enquanto o diabo
fica sentado em meio ao redemoinho
pondo a girar seu corpo em areia e vento
no pião do menino
e, destarte diabólica,
maquiavélica,
do demônio em circunvolução de poeira,
faz de si em giro
um outro Adão
em "alter ego".
Esta a alteridade do diabo com o homem
e na mulher com as serpentes nos cabelos
- da Medusa!
Quem não tem licença poética...
que não me perdoe!
- mas que saiba! :
que sou homem indômito,
selvagem, ermitão,
santo, monge, casto...
e não há mito
que me subjugue
no rito,
- nem rito
que me faça dançar,
( faca nos dentes!)
cantar, tocar cítara,
escrever ou representar um drama
sacro ou profano, ufano...
- que me faça dançar um mistério popular!
(Mas ela pode tudo comigo,
a minha Medusa...
que me domina
com um simples olhar
ou modo de mexer a cabeça,
os olhos, o gingado simples e honesto
- e a boca bela entreabrir-se
num sussurro de comando
que acato embevecido...).( Excerto da obra "O Opúsculo do Organista Inimaginável da Capela Gótica de Sainte-Chapelle").
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Um ensaio sobre a Medusa, uma das Górgonas dos gregos antigos, é, em
geral, feito à base de informações visuais sobre a figura geométrica
daquela górgona com cabelos de serpentes.É como se uma criança
observasse a imagem passada pela tradição geométrica na figura simbólica
de uma mulher ou uma espécie de mulher em sociedade; enfim, uma espécie
social individuada em inúmeras medusas. Essa criança observadora
colocaria a medusa vista no contexto pobre de si, do seu ego e
inteligência de alcance limitado, e, outrossim, nos egos e
inteligências limitadas pelos intelectos subdesenvolvidos de seus pais, os quais, por seu turno,
costurariam a górgona no contexto sócio-cultural ( o que pressupõe
econômico e político), igualmente limitado, mas mais abrangente, em que
se inserem na sociedade e cultura de que são parte na comunidade,
cultura essa que são os pais dos pais nossos e, quiçá, com variantes(variantes!),
dos avós, bisavós, mas que vai diminuindo de coincidências nos tataravós
e demais antepassados, cujas tábuas de valores eram outras e a
tecnologia também divergia.
O que fazem, faziam e farão com a
inteligência que temos da medusa, nossos pais, avós, filhos e nós
mesmos, e mesmo o mais sábio, erudito e experiente, lido, viajado homem,
o pota mais erudito ou o filósofo mais livre, ainda não torna possível
uma leitura completa, senão aproximada, da ideia que a medusa
representava no cosmos social e cultural grego. O que dizia aquele grego
antigo, em língua, e em poesia, sobre a medusa? E o que queria dizer?
Os
poetas, eruditos sensibilíssimos e inteligentíssemos, sábios
personalíssimos que provam da vida, do amor e conhecem o abismo infame e
glorioso em que estamos todos seres humanos mergulhados; os poetas,
que são criadores e co-criadores, partícipes na criação dos mitos (
estão perenemente a recriar a medusas e outras obras poéticas escritas
no papiro, pergaminho, no areal frouxo, no papel, em luz, no mármore ou
na pedra-sabão, no entalhe em madeira, nas pinturas em ânforas, quadros,
afrescos nas paredes das capelas "Sistinas", no ar pelo som, nos olhos e
no corpo da mulher amada, do filho, da filha, do neto e da neta mui
queridos; enfim, nas artes, - estes poetas que estão por aí bebendo da
corrente da vida, saboreando com gosto e sentidos vitais a vida e a
paixão que é viver, amar, sentir, experenciar, pensar, observar, estes
estetas que produzem a verdade e são a criam, destarte, a filosofia, na
tragédia e na lírica, - estes sábios escribas de cultura
enciclopédica, tem poderio para achar e seguir as pistas, descobrir ou
inventar, re-inventar o caminho, nos rastos da medusas, os quais podem
ser mãos enormes e aptas a abir o livro de ouro da aletheia grega e nos
ensinar sobre o que a medusa significava e era ( o ser do mito) para
aqueles gregos agregados em comunidades. Gregários "gregos".Evidente que
não só os gregos são gregários, as todos o somos quando estamos em
assembléia, igreja, agremiação, grêmio, palavras que dançam em grego
( e
me todos nós) até os nossos dias estivais.
Existem muitas medusas na
história social afora e na atualidade. Basta olhar os bastos cabelos
que os olhos e a luz recalcam. Cabelos recalcados, cabelos medulares de
medusa, na língua dos anjos e arcanjos que libertam a poesia em versos
ou em cores, desenhos, danças (desenhos no vácuo, abstraindo o ar ou a
atmosfera que impera). Vou olvidar o etc da boa praxe.
A mulher do
mito é a que passa de fora, do mundo real, natural, externo na captação
dos sentidos, que capturam essa imagem em natureza ou e luz, sombras,
cores, odores, tatos, gosto gustativo ( gustação) e um sexto sentido
eletromagnético e um sétimo sentido, dito social, que completa o
indivíduo ao inserí-lo perenemente e todo o tempo em comunidade, que o
contextualiza ou re-escreve ( o homem, a mulher e uma escriba de si na
perenidade do re-escrever-se exaustivamente). O grupo, através da
escrita
de gestos e falas da política, re-escreve o indivíduo humano e o prende
nesta escrita. A escrita é a prisão do homem pela eternidade que
existir o homem : é um berçário e túmulo em signos e símbolos que se
enrola em cobertores, cobertas, panos que envolvem o recém-nascido e,
outrossim o adulto, durante o transcurso da existência; por fim, n
findar a vida, uma veste mortuária para múmias que acompanha e mantém o
ser humanos
ainda humano mesmo após longos anos ou séculos, milênios do seu
passamento. Essas vestes por fora e as por dentro , confeccionadas pelo
escriba ( o poeta, o filósofo, o sábio, o engenheiro, o inventor, o
legislador) que nos faz humanos e co-partícipes de um banquete no mundo.
A
mulher, no caso a medusa, do mito, que é uma introjeção que cabe na
mente
humana, pois somente percebemos e fazemos ou completamos um estudo da
coisa enquanto objeto nosso, dado pelos sentidos e burilado pela razão. A
medusa e outros mitos e ritos é esse instrumento abstrato na mente,
objeto de filósofos, ou seja, doutos, e concreto, objeto de poetas, em
concreção nas escritas de signos e desenhos refinados e encimados por
símbolos geométricos, semióticos, semiológicos e de outras linguagens,
que concebem e são concebidos pela mente e pela destreza da mão. Da
destra e da sinistra.O que pensa e faz o homem em movimento ( suas
danças nas linguagens corporais e mentais, com sete véus na dança do véu
da política e dos políticos!) é que faz o homem anjo e demônio, no
entoar do canto lírico ou trágico, nos movimentos mentais, que se
desabrocham nos labiais, labiodentais...( movimentos, dança do espírito
ou do pensamento, no dançarino Nietzsche que osmos todos nós, não
importa o retardamento mental ou o o grau de autismo; destro e si nisto
nos movimentos requintados da mão e do corpo.

medusa
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